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09.01.15

"Para mais - e é aqui que bate o ponto -, ninguém tem o menor respeito pelo trabalho de escrita. As pessoas coíbem-se de interromper quando um carpinteiro, de fita em riste e língua apertada entre os lábios, vai tirando as suas medidas. Respeitam o mecânico ou o canalisador que está estirado no chão. Acautelam-se quando o empregado do supermercado começa a contar os iogurtes. Até vão ao ponto de respeitar um advogado quando este maneja carrancudamente os seus túrgidos códigos. Eles estão a trabalhar. Mas quando alguém se encontra sentado a uma mesa a escrever coisas de literatura, toda a gente se sente com o direito à interrupção. Conta-se que a velha criada de Alexandre Herculano, quando um jornalista curioso lhe perguntou o que fazia o mestre desterrado em Vale de Lobos, respondeu: «Não faz nada. Nadinha. Passa os dias a ler e a escrever.» Este preconceito popular de que escrever não é trabalhar encontra-se muito disseminado e chega a contaminar atitudes supostamente mais sofisticadas."

 

Mário de Carvalho, Quem disser o contrário é porque tem razão

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publicado às 11:00


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